“Inferno provisório”
Eu sou mesmo daquelas pessoas choronas, emotivas ao extremo. Deve ser genética, em casa todo mundo chora à toa. Meu coração já doeu por cada coisa que se eu disser aqui nem sei... Por exemplo: Eu fiquei realmente triste quando li em um jornal cujo nome não me lembro que o Angeli ia matar a Rê Bordosa. Creio que era 1990, 91, por aí. A justificativa dele pra tal ato até que fazia sentido: a Rê iria morrer porque ficou famosa demais e o Angeli não queria que ela virasse o marco do seu trabalho, tão vasto. Mas não foi só isto, o jornal também dizia que a Rê não sobreviveria aos novos tempos. A referência era à AIDS, que levou muita gente boa; também dizia respeito à busca, principalmente por pais que “aprontaram” todas, de atitudes politicamente corretas ou sexualmente mais adequadas para os filhos dos próximos anos. E neste caso dá uma vontade de puxar o título de um filme bastante sugestivo (Ainda sei o que vocês fizeram no verão passado), mas revisão é revisão e, tirando a hipocrisia, sempre é bom rever alguns conceitos e tomar certos cuidados; até pra se manter vivo .A personagem do Angeli povoou as mentes mais e menos insanas da moçadinha anos 80; que não era só o que disse Raul Seixas: “melancolia e promessas de amor”, havia muita “ousadia” no ar. A Rê Bordosa foi a meu ver, não só a representação da crueza cotidiana dos “atirados” pra vida, como inspiração pra muitos encastelados: porraloquice pura. Mas, enfim, o Angeli fez o que achou melhor naquele momento: Tirou a Rê Bordosa de cena.
Tempos difíceis como os que estamos passando: tragédias de toda ordem(e não vou nos porquês, hoje não), somados a questões pessoais de quem vos dirige a palavra ( já tratei deste assunto), me lembram muito as tirinhas da Rê. Não o mérito daquela ressaca em particular (quem lia, sabe), mas a vida em si que , vez ou outra, dá um bode danado na gente. Como diz uma amiga: Se pelo menos a gente conseguisse falar uns palavrões, daqueles bem cabeludos, quem sabe aliviava. Pensando bem, se assim fosse, uma carioca muito doida que eu conheço e gosto , a Sandra, seria uma pena rs.
Eu andei meio cabreira um tempinho, um verdadeiro porre emocional, espiritual e mais um pouco. Pra o leitor entender melhor, vou contar umas historinhas . Dias atrás, liguei para uma amiga e a convidei pra irmos até uma livraria na cidade. Eu estava precisando ler outras coisas que não fossem noticias ruins: morte, roubo, morte, roubo, roubo, roubo, morte morte, ninguém merece. Ta, então vamos!!! Até ela já estava preocupada com aquela que sempre demonstrou toda a leveza do mundo, ou quase. Começamos a percorrer o interior da loja e eu nem tinha idéia do que comprar. Olha uma obra: não. Olha outra obra: não. Ficamos algum tempo até que ela me veio com um livro na mão dizendo que o título lhe parecera bastante sugestivo, gostei. Rodamos, rodamos e acabei comprando três livros os quais vou lhes apresentar só pra ilustrar como o bicho tava pegando mesmo. A saber: Inferno Provisório , vol, 1; Até Nunca Mais por Enquanto; e, finalmente, Como Ser Feliz Sem dar Certo, e outras histórias de salvação pela bobagem. É claro que comprei pelos títulos, sem nenhuma indicação. Não fazia a menor idéia do conteúdo entre as capas.
Comecei pelo terceiro e acabei rindo muito. Sabe destas histórias cotidianas que quase todo mundo vive? Dos questionamentos que quase todo mundo faz? Tipo mesa de bar ou beira de rio onde não há consenso e povo extravasa. Não tem figurinhas nem fotos mas é fininho (risos) e eu recomendo. Esses eu gosto mais porque os tijolões só muito bem indicados e olhe lá. Já li muito lixo a contragosto, agora chega.
Depois deste livro, eu fui melhorando e fiquei meio assim sei lá, de ler os outros. Mas já comecei, só não vou estressar, quer dizer, vou tentar.
Eis que os ventos começam a soprar mais suave e pra completar a maré boa recebi um convite para a inauguração de uma belíssima clínica. Destas cuja proposta é a de contribuir para que indivíduo se torne mais inteiro, menos zumbi ambulante. O duro é o preço. Nesta inauguração, durante uma palestra surgiram algumas considerações sobre a vida e o que se espera dela. Um homem em especial, com marcas do tempo, me chamou a atenção. Disse que já correu o mundo em busca de algumas respostas e que parte delas estão em aberto. Ouvi atentamente tudo o estava sendo dito ali. Em seguida percebi o quanto já estava melhor. Isto porque aquelas viagens cerebrais e quase sempre bem humoradas foram ressurgindo. Quando uma mulher afirmou que o importante na vida era a busca, o caminho, o trajeto e não o destino eu me pus a pensar. Pensei tanta coisa razoável, mas também tanta besteira que acabei rindo sozinha sem que minha amiga do lado pudesse perceber. Concordando naturalmente com aquele raciocínio, imaginei quanta gente passa a vida viajando em caminhões baú, bem fechadinhos. Fazer o que né? Aí, em meio a convulsão de idéias, lembrei dos meus cenários; alguns em especial é claro, e fiquei bem. Tem as dores do mundo eu sei, tem as minhas também, mas tem outras coisas. Então vou propor pra que a gente viaje na boléia de um caminhão. Pelo menos a visão é mais ampla.
Hoje, pra encerrar vou citar uma musica da Ana Carolina que atende ao meu estado atual:
“Vou deixar a rua me levar, ver a cidade se acender. A lua vai banhar este lugar e eu vou lembrar você”.
Valeu.