Desde que cheguei aqui retomei o hábito da leitura. Havia um bom tempo que não lia “por prazer”, mas “por obrigação” – mal de mestrando – a ponto de, como todos o que passam pela pós, dizer que não queria ver livros na minha frente por um bom tempo. Mas isto é bobeira: quando um argumento interessante captura o nosso olho e a nossa curiosidade é atiçada, a gente pára para ler mesmo.
E, então, me apaixono por um gênero que não encontra muita tradição (ou recepção) no Brasil, pelo menos até onde eu saiba, mas que, eu diria, é o gênero mais difuso aqui na Itália – são os chamados saggi, traduzindo “ensaios”: um escrito que é uma análise ou um posicionamento crítico do autor sobre algo, escrito de forma muito pessoal.
E gostaria então de apontar três autores, por ordem de chegada ao meu conhecimento, dos quais li o máximo de coisas que escreveram, até porque um ensaio puxa outro...
O primeiro deles é o jornalista Beppe Severgnini. Comecei a lê-lo para poder entender melhor a relação entre os italianos e a língua inglesa e seus povos. Leitura bastante particular, pois foi uma forma de me preparar para o meu trabalho como professora de inglês numa outra cultura. Mas, no geral, dentre os seus livros, recomendo La testa degli italiani, algo como: “A cabeça (mentalidade) dos italianos” – obrigatoriamente em italiano porque não tem a tradução para o português ainda. Suas observações sobre os próprios conterrâneos e contemporâneos me abriram os olhos sobre quem são os italianos do nosso tempo. Este povo que sentimos amar como se fossem avós queridos, principalmente se somos descendentes e vivemos do outro lado do oceano, mas que conseguimos detestar como um obstáculo quando com eles começamos a conviver.
Uma das coisas que mais me impressionou foi a afirmação do autor de que o italiano vive em banho-maria na beleza a ponto de não percebê-la mais. Eis uma grande verdade, pois basta começar a viver aqui para entrar no automatismo e não perceber mais as belezas que nos circundam, seja aquela da natureza, seja aquela que o homem construiu.
O segundo escritor, também italiano, é Luciano De Crescenzo. Seus livros sobre a história da filosofia são excelentes introduções, ou melhor, “fisgos” para o leigo que quer saber mais a respeito da filosofia e dos filósofos, mas acha aquelas coleções de vários tomos uma leitura difícil e abstrata. O seu estilo é uma conversação descomplicada (e até repetitiva para melhor apreendermos) sobre as idéias dos filósofos e suas épocas. O autor se considera uma escadinha que ajuda o leitor alcançar os volumes mais altos da estante da biblioteca – e consegue!
Dentre as tantas coisas que tomei conhecimentos lendo suas histórias, uma me tocou de forma muito interessante, do tipo “acredito, mas não concordo”: a afirmação de um certo filósofo de que a infelicidade do homem tem origem no seu descontentamento em viver onde nasceu e buscar viver em outro lugar. Será? Se eu (e outros) soubesse disso antes abriria mão de querer viver fora? Não estou tão segura... Mesmo sabendo disso antes, eu ainda iria querer desenvolver a minha própria filosofia a respeito do assunto, obviamente passando pela experiência...
O último escritor desta minha “resenha literária” é o suíço Alain De Botton que também se dedica à filosofia. O primeiro de seus livros com o qual entrei em contato foi A arte de viajar e neste livro encontrei uma passagem muito interessante: o autor explica que o nosso cérebro precisa de algo que o distraia a nível superficial para nos concentrarmos em algo a nível mais profundo. Foi então que entendi por que algumas pessoas somente conseguem estudar se ouvindo música ou com a televisão ligada – coisa que nunca entendi e abominei. E compreendi por que, tantas vezes, mesmo estando tão concentrada numa leitura me apanhava pensando em outra coisa sem querer! Ou seja, o meu cérebro se distraía a nível superficial com a leitura, enquanto “em suas profundezas” outros pensamentos tomavam forma.
Enfim, depois de retornar a ler com o mesmo entusiasmo de quando era pré-adolescente e freqüentava a biblioteca municipal, meu pensamento tem sido apenas um: é lamentável que no Brasil os livros sejam tão caros. Gostaria de poder dizer aos meus amigos que gostam de ler como eu “leia este, leia aquele livro”, mas me sentiria uma esnobe. Pois, enquanto bons livros podem ser encontrados na faixa de 5-10 euros, estes mesmos livros custam entre 26-42 reais. Mais comparações? Enquanto eu pago até menos de 1% do meu salário num livro, um colega pagaria em média 5% do seu salário no mesmo.
Ler não deveria ser um luxo em país nenhum...