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COLUNAS

A Outra Margem da Poesia

Duas Horas
Autor: Paulo Lucká

Eu gostaria de olhar dentro de seus olhos.

Um som, um toque, uma brisa, uma palavra,

Eu não sei exprimir muito bem.

Parece apenas uma lembrança

De um homem que se esqueceu de acordar

E continuou dormindo no gramado.

 

Agora não importa mais.

Um homem não vale mais que um sonho,

E o sonho já não leva a lugar nenhum.

Devia valer a pena esperar,

Mas o dia correu por entre os dedos.

Será que alguém ia se importar?

 

Como era branca a música que soprava o vento;

Como era triste aquele boneco de neve

Que caminhava sozinho ao amanhecer.

Ele só queria dizer adeus,

Mas ninguém quis ouvir.

Será que alguém ia se importar?

 

Deixe a nuvem dispersar.

Talvez a lua esteja cheia.

Deixei você sozinha apenas um instante,

Só quis afrouxar as cordas.

A lua não pode cegar sua visão,

Apenas guia ao caminho das pedras.

 

Agora o homem corre pela estrada.

Ela não leva a lugar nenhum,

Mas ele continua ouvindo aquela música.

O cão está latindo

E seu dono sorri como um lunático

Pisando nas flores do jardim.

 

Adeus, céu azul.

Os aviões estão sobrevoando a montanha

E logo eles irão chegar.

As bombas já estão caindo do outro lado

E um homem negro está sobre a cerca

Observando as crianças brancas brincarem.

 

Volte antes de escurecer,

Não dirija a palavra aos leprosos,

Talvez encontre o seu diamante.

A porta está se fechando

E o relógio parou à duas horas,

Quando o eclipse engoliu a luz do sol.

 

Olhe no fundo do poço.

Você não consegue enxergar?

Sou eu a figura estranha.

Corra para longe, talvez haja tempo.

Eu queria fazer alguma coisa;

Eu gostaria de olhar dentro de seus olhos.


Fale com o autor: paulolucka@gmail.com

Paulo Lucká: ou como costuma indicar seu registro de nascimento, à sua revelia, Paulo Rogério de Souza – é graduado em Letras pela Universidade Estadual de Maringá (UEM) e atualmente é mestrando da mesma universidade (UEM) na área de Fundamentos da Educação, desenvolvendo uma pesquisa sobre tragédia grega (século V a.C.) analisando as peças Sófocles. Além de pesquisador, é também poeta e romancista. Atividade que desenvolve na clandestinidade da solidão, escondendo-se nos porões do anonimato, escrevendo a luz de velas o que espera seja um dia iluminado pelos holofotes. – Isso se ainda houver luz quando este dia chegar.

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